Empatia é um sentimento nobre. O empático tem a capacidade de sentir o que o outro sente, ele está dentro da cabeça do outro. Isso o sensibiliza. É incrível como algumas pessoas, apesar da correria da vida, do trabalho e de todas as suas atribuições conseguem doar seu tempo para outros, nem sempre conhecidos.

Calma, não vou fazer um discurso sobre a importância desse sentimento porque você já sabe. Se você pratica ou não é com o seu travesseiro que você deve se acertar. Eu acho muito difícil ser empático, até porque com a quantidade de gente que existe no mundo, se formos parar para ajudar os que estão em dificuldade não faríamos mais nada e ainda não seria suficiente. Eu tento, mas um dia eu estava especialmente sensível.

Ponte_MulherTempoEu morava em Niterói e trabalhava no centro do Rio. Como eu visitava clientes precisava trabalhar de carro. Basicamente eu tinha que pegar a Perimetral, um elevado de 5,5 km que passa sobre a área portuária e que foi implodido em 2014. De lá você tem acesso para a Avenida Brasil, Aeroporto Santos Dumont e a Ponte Rio Niterói. Eu pegava a Ponte Rio Niterói. Uma rota linda que me permitia observar os navios enormes, reparar se a maré era vazante, acompanhar o voo das gaivotas próximas ao vão central, enfim olhar o grande mar. O problema é que quando você tenta ir pra casa às 18h00 vai ficar olhando o mar por um bom tempo, umas duas horas.

Minha carreira vinha antes desse desconforto. Na minha área eu precisava trabalhar em uma grande capital. E, desculpe os que não pensam assim, mas sempre fui muito comprometida com meu trabalho, por isso naquela sexta-feira chuvosa quando pedi ao meu chefe para ir embora e ele viu que eram apenas três da tarde, perguntou se eu estava bem. Não, estava ardendo em febre, doendo todo o meu corpo e com uma tosse horrível. Peguei minhas coisas, liguei meu Uno preto e fui em direção à Perimetral. Só que mesmo sendo cedo, estava tudo engarrafado, para o meu azar. Segundo a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP), o Elevado da Perimetral já estava saturado em 119%…

Aumentei o volume do rádio, acelerei o limpador de para-brisa e me resignei com o meu destino. De repente reparei um caminhão que estava um pouco mais a frente. Ele era aberto e tinham quatro trabalhadores na chuva. Pensei: “Nossa, e se um deles estiver com a virose que eu estou”? Não consegui parar de olhar e me sentir muito mal com esta situação. Depois consegui ver a sigla que vinha na parte traseira PMN, ora o caminhão era da Prefeitura Municipal de Niterói. Não tive dúvida e comecei a sinalizar com o farol para o caminhão. O carro que estava entre nós pegou a esquerda e eu fiquei colada no caminhão. Buzinei e um dos caras olhou. Aí o chamei para dentro do meu carro. Ele não acreditou e eu fiz o movimento com mais ênfase. Ainda apontei para os outros três. Um deles desceu e foi conversar comigo. Estava tudo parado mesmo. A chuva atrapalhou bastante, mas expliquei que eu estava indo para a mesma cidade e que não achava certo eles ficarem na chuva e eu no carro vazio. Entraram quatro homens molhados no meu carro. Eu me senti a pessoa mais generosa do mundo. Quanto altruísmo! E fomos conversando enquanto ainda estava no Elevado. Eles estavam muito felizes, dizendo que isso nunca tinha acontecido antes, que eu era muito boa. Fiquei muito animada, afinal o reconhecimento é algo bem agradável. Perguntei que tipo de serviço eles estavam fazendo e eles falaram que estavam carregando carteiras escolares. A Perimetral acabou e eu peguei a direita, no sentido da Ponte. Subitamente todos ficaram calados. Achei estranho, não entendi o silêncio. Olhei para o rapaz que estava do meu lado e perguntei se estava tudo bem. Ele arregalou os olhos e me perguntou para onde eu estava indo. Fiz uma cara de óbvio e respondi que estava indo para Niterói. Ninguém falou nada, mas começaram a se movimentar de forma inquieta. Eu percebia resmungos e caras MUITO feias. O mais novinho estava bem atrás de mim e, para a minha sorte, era bem religioso. Falava bastante em Deus. Ele me explicou que eles não estavam indo para Niterói. “Como assim”? Eu quis saber. Ninguém explicava. Aí comecei pensar que talvez eles quisessem que eu os levasse direto para suas casas. Sei lá, acho que pensaram que eu era SUPER boa. O clima foi ficando cada vez mais tenso e eu fiquei bem preocupada, na verdade fiquei com medo. A minha ficha começou a cair. Tipo, você está sozinha com quatro homens dentro do seu carro. Se eles te mandarem pegar outra estrada, você vai ter que ir. Eles são Q-U-A-T-R-O. Mas meu amiguinho religioso estava do meu lado e falava para os outros que eles deviam entender que eu tinha sido muito boa, que a minha intenção foi ótima. Finalmente chegamos em Niterói. Eu estava muda. Não sabia se devia perguntar onde os deixava ou se seguia em frente. Ok, não sou do tipo passiva e aquele silêncio estava me incomodando. Ora bolas, eu os tinha tirado da chuva e da carroça de um caminhão! Cadê a consideração?  Parei o carro no acostamento da avenida que sai da Ponte e disse:

Pessoal, não estou entendendo vocês. Achei que tivesse feito uma boa ação trazendo vocês para Niterói. O que foi que eu fiz de errado?

– E quem foi que disse que nós somos de Niterói? Falou um deles.

– Ué, eu vi no caminhão PMN! Respondi.

– Só que nós somos de Nilópolis! Quase gritaram os quatro.

Tá bem, eu conto o fim da história. Tive que dar 10 reais para cada um e deixá-los na rodoviária.

 

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