Você trocaria a cidade em que mora?

Sair de uma cidade grande é bom… E ruim. Na verdade é uma troca. Resta você analisar se esta troca é benéfica para você. Eu troquei a praticidade da cidade grande pela tranquilidade da vida na cidade pequena.

Se você começar a enumerar as qualidades das cidades vai ver que elas não podem conviver. Você não pode ter tudo de bom que as duas têm. Se você quer ter teatros, cinemas, bares e restaurantes vai ter que conviver com trânsito e assaltos. Agora se preferir ter uma casa em terreno grande, sem poluição, muita área verde e tranquilidade para deixar a porta aberta vai precisar viver em uma cidade pequena e segura. Essa é a escolha.

Como eu dizia, houve um momento em minha vida que tive que optar. Recebi uma proposta de amor e eu disse SIM. A possibilidade de ter uma família em um lugar tranquilo, calmo e longe do estresse. Isso foi o que racionalizei ao pedir a demissão da empresa dos meus sonhos, me despedir da minha família, meus amigos de infância e de toda a praticidade que tinha no lugar em que morava. Fui morar no interior de São Paulo acreditando que não haveria ponto negativo forte o suficiente que fizesse balançar minha decisão. Entretanto eu achava que o estresse, que sempre tive, fosse desaparecer e isso não aconteceu. Percebi que movimentos mais lentos me estressam tanto quanto a agitação. Voei para os livros. Lá está escondida a sabedoria do mundo. Pesquisei e encontrei algumas fontes de equilíbrio.

Do dia para a noite a minha casa se encheu de objetos Zen. Mandalas, sinos do vento, incensos, assinatura da Bons Fluidos e até roupas indianas. Eu estava me sentindo a própria paz. Nada me tiraria o equilíbrio e quando eu começava a me estressar já invocava o mantra Ohmmmmmmmmm. Tudo voltava ao normal. Meu marido percebeu que sou intensa e teve a sabedoria de não me contrariar. Quando eu gosto, amo. Quando não gosto, odeio.

Outro fato que passava na cabeça dele, apesar de não ter sido falado entre nós, foi o peso na consciência dele por ter me tirado da cidade grande. Bobagem, foi minha escolha, mas vai explicar para o coração. Talvez esse seja um dos motivos por ele sempre me apoiar nas minhas escolhas.

Em alguns casos apoiar significa ir junto. Eu me inscrevi na aula de ioga e voltei insuportavelmente calma. No dia seguinte comecei a fazer a minha campanha para ele ir à ioga comigo. Meu marido é do tipo quietão, quando não gosta de algo, dá um sorrisinho e desconversa.  Claro que insisti. Fiz mais pesquisas sobre os benefícios da ioga e mostrava para ele toda noite. Ele só dizia que não precisava se acalmar e que provavelmente dormiria em sala de aula. Expliquei que a ioga o ajudaria a ser mais flexível. Por fim, apelei e disse que queria muito a companhia dele. Consegui.

Comprei roupas mais folgadinhas para ele praticar e ele achou estranho. É que meu marido é bem conservador. Ele é básico, só usa calça azul e Hering branca! Chegamos à sala e ele ficou observando, mais quieto do que é. Ele me puxou para um canto e disse baixo: por que você não me disse que aqui só tinha mulher? Respondi que isso não deveria incomodá-lo e que o professor era homem.

meditacaomanTodos prontos e a aula começou. Fizemos alguns exercícios em pé, praticamente um aquecimento. Depois nosso professor pediu para nos sentarmos. Cada um em seu colchão, olhos fechados, pernas de índio e escutando suas orientações. Ele disse que aprenderíamos a respirar. Às vezes eu abria os olhos para ver meu marido. Ele ainda estava durão – desconfortável – e abria os olhos para ver se os outros estavam quietos mesmo. Aí ele olhava para mim e eu fazia cara feia com a expressão séria de… “se concentra aí…” e ele fechava os olhos.

O professor falava bem baixo. Ele dizia para respirar e pensar que o ar estava circulando por todo o corpo e com isso a nossa energia curativa. Todos estavam super compenetrados na tarefa de levar energia para os pontos necessários. “Faça o ar circular por todo o seu corpo” disse o professor.

Não sei se ele pensou que não conseguimos fazer o que ele mandou ou se quis ser mais claro, mas o fato é que ele ficou quieto um tempão e em seguida disse: “leve seu pensamento para o ânus”!

Essa foi a última aula que meu marido participou.