A história da garçonete que não tinha obsessão por dieta

Eu poderia fazer um livro com as histórias das minhas sobrinhas. Elas são totalmente diferentes e completamente divertidas. Hoje vou falar da mais velha, a Rebeca. Essa menina não cansa de me dar insights.

Rebeca é uma jovem muito elegante. Alta e magra. Cabelos longos, estilo top model e atriz. Apesar de ter se formado em Propaganda, ela é contra o estímulo ao consumo, pois acredita que não há necessidade de se criar desejos, mas apenas atender às necessidades. Ela é despojada de luxo, cultiva a meditação e o bem-estar. Há pouco fez uma viagem para a Eurásia e lá conheceu mais culturas, se encontrou na Yoga e outras linhas que pregam o cultivo ao que é essencial. Rebeca é uma cidadã do mundo, não se apega.

Voltando ao Brasil, precisou trabalhar. Como durante sua viagem, foi lanterninha e garçonete, aproveitou sua experiência e aceitou um trabalho no restaurante.

Ela acreditou que quatro meses na Índia seriam suficientes para encarar qualquer desafio com muita paciência… Depois de alguns meses teve que cair fora.

“Tia as pessoas são muito estranhas”!  Eu quis saber por quê. Então ela fez uma classificação dos clientes.

Estatísticas

Por padrão, a garçonete deve limpar a mesa do cliente que saiu e rapidamente levar o cardápio para o cliente que chegou. Ela precisa ficar longe o suficiente para o cliente ter privacidade, mas perto o suficiente para ele se sentir acolhido. Em seguida, ela tem que aguardar o cliente chama-la para fazer seu pedido. E aí começam os problemas!

Segundo minha consultora, quando os clientes a chamam, eles se dividem assim:

– 20% estavam realmente prontos para pedir, mas porque já eram frequentadores;

– 80% pedem sugestões aos atendentes, pois não sabem o que pedir. Desses, 15% pedem diversas mudanças no cardápio principalmente colocar ingredientes mais caros em pratos promocionais (o famoso PF).

 Indecisão x dieta

Rebeca me contou que não gostava muito de atender às duplas femininas. Além de não fugirem da estatística, jamais sabiam o que pedir, mas mesmo assim, chamavam a garçonete. Como na história abaixo:

– Bom dia, eu sou a Rebeca e vou anotar o seu pedido!

Rebeca, a estátua, ficou observando o diálogo das peruas, digo, das mulheres:

As duas ficaram se olhando com cara de dúvida.

– “Amiga, vamos comer uma saladinha”?

– “Isso que tal essa de quinoa com franguinho desfiado”?

– “Ótima ideia, mas vamos acrescentar uma salada que tenha folhas por causa das fibras, né? Que tal uma Caesar?

– “Boa e a gente pode dividir”!

A invisível garçonete estava com o caderninho pronto para anotar, mas o pedido…. Não vinha. Ela ainda podia perceber pelo canto dos olhos, umas quatro mesas querendo pedir.

– “Estamos de dieta e seremos fortes. Vamos comer a salada de folhas, um suco e que tal uma porçãozinha no lugar da Caeser”?

Ingrediente fora da dieta

Percebendo a entrada de mais um ingrediente potencialmente polêmico, Rebeca falou para as clientes que as deixaria decidindo e depois voltaria. As duas gritaram para ela ficar, pois já tinham decidido.

– “Faz assim, será que você poderia trazer dois chopes antes da refeição? É que nós somos guerreiras”!

Rebeca respondeu que sim e pensando porque raios poderia não ser possível levar o chope antes.

– “Então faz assim, traz uma salada e a porção. Pode ser de batata frita”.

– “Boa ideia, batata digere fácil. Mas, então tira a salada, até porque aqui não tem tanta opção assim. E já que vamos dividir, não vai ficar tão pesado”!

– “Fazia tanto tempo, né, merecemos”.

Minha sobrinha me contou que as pessoas chegam querendo ser saudáveis, mas diante da menor tentação, desistem. Ela me disse que quando entrou no restaurante, sempre sugeria pratos mais saudáveis, só que depois de um tempo percebeu que as pessoas não estão nem aí para isso. Elas chegam falando do índice de acidez do azeite, verificam as 17 opções de salada e não querem nada. Aí eu perguntei o que ela oferecia?

– “Uma costelinha de porco com bastante molho barbecue. Tia, tinha que ver o brilho no olhinho delas”!

Há solução para a dieta?

Sim e ela não precisa ser radical. Sou contra essa obsessão por dieta. Eu me incomodo de ver pessoas contando calorias. Comer é um prazer! Pelo menos deveria ser.  Eu não estou de dieta. Eu como de forma saudável.Talvez a solução para não sofrer seja a forma de pensar e falar: fora com a palavra dieta!

Mas voltando ao restaurante, acho que a gente não consegue imaginar como funciona a vida desse profissional. Eu, particularmente sempre gostei de mexer nos ingredientes dos pratos, mas vou reconsiderar. Entendi que, quando vou a um restaurante,  a forma como vou fazer o pedido também vai impactar no que eu vou realmente comer.
Denise Capece para Mulher Tempo

Foto: Dayane Luchese