Toda emoção precisa ter um limite? Não que eu acredite em máximas, “tudo demais enjoa”. Não é isso. Até porque beijo apaixonado não enjoa. Ficar só no beijo, sim…

Tenho paixão por animais. Já tive muitos, mas certa vez eu extrapolei. Queria ter um cachorro muito grande, já tinha tido um dogue alemão, queria um diferente e maior. Conversando com um amigo do meu marido descobri que ele tinha um boi Guzerá. O bicho tem 1,40 m só de chifre. Vi a foto. Também vi que o boi brincava com a filhinha dele de quatro anos. Aí ouvi algo como, ele é que nem um cachorrinho de estimação. Isso foi o suficiente para a sementinha da vontade de ter um boizinho começar a se mexer na minha terra.

Pesquisar foi o primeiro passo. DeMulherTempo_Mussy tudo que li, concluí que as etapas mais difíceis seriam achar um boizinho,  transportá-lo e convencer meu marido. As afinidades unem as pessoas e voltei a encontrar o tal do amigo, que a esta altura já era meu amigo. Com um linguajar técnico de fazendeira recém adquirido disse para ele que possuía um pasto muito interessante caso viesse a adquirir um animal um dia. Ele me olhou e perguntou se eu estava realmente pensando em ter um boi. Disse que sim, mas que preferia um que não tivesse chifres e não fosse tão grande. Algo como um Jersey. Arrisquei. Ele disse que arrumaria um animal para mim, mas queria saber o que meu marido achava disso. Menti, é lógico.

Conversei com meus dois cúmplices, meus filhos menores, e eles acharam a ideia ótima. O próximo passo era dar nome para a minha ideia. Deveria ser um nome inspirador. Aprovamos Muuuussy. Obviamente que se um dia comprar uma cabra será Isabeeeeel. Começamos a falar do nosso projeto já com um nome. Precisamos fazer uma casa para o Mussy, temos que encontrar um veterinário para o Mussy. O que Mussy come? O Mussy tem que tomar vacina? Finalmente, na volta das férias de julho, uma ligação. O Mussy havia sido achado. Era um bebê órfão desde o nascimento, alimentado na mamadeira e muito bonzinho.

– “Quanto custa”? Eu quis saber. Meu amigo não aceitou pagamento. Só queria ter certeza que meu marido não brigaria com ele. Menti de novo, dizendo que ele estava mais ansioso que eu.

O Mussy chegou. Que cara mais linda. Que manso. Que alegria. Construímos uma “casa” para ele, fizemos o cocho e compramos uma bombona para por a água. E foi assim que começou o meu caso de amor com o meu boizinho.

Fiquei sabendo que é preciso ter muito contato e o banho é um momento legal. Duas vezes por semana lá estava eu com meu par de botas, chapéu e mangueira na mão. Para as orelhas sabonete Granado! Também duas vezes ao dia, na hora de alimentá-lo eu escovava seu pelo. Algumas vezes eu levava mamão, laranja e ele comia tudo muito bem. O que eu mais gostava nele era o cheirinho de melão que ele tinha. Não sei por quê.

A empolgação não passou e continuei a me dedicar ao animal do mesmo jeito. Eu sou um pouco medrosinha, porém muitas coisas que faço são bem corajosas e definitivamente ter um boi de estimação é uma delas. Isso era também uma espécie de desafio. Um dia ele veio correndo me encontrar. Você tem ideia do que é ver um animal de 120 kg correndo em sua direção? Aprendi que se eu colocasse as duas palmas viradas para ele e fizesse “ôôôôô!!” ele parava e fomos nos conhecendo.

Um dia tive a ideia de enquanto escovar, cantar. Precisava ser uma música romântica e fácil de cantar. Enquanto pensava saiu “Como é grande, o meu amor, por você”! Todo dia eu cantava e acredito que ele gostava. Isso o deixava bem calminho. Acho que seduzi o bicho. Ele ficou apaixonado por mim de um jeito que ninguém podia entrar na “área” dele. Ele ia de cabeça na pessoa. Só eu, meu filho menor e o jardineiro que podíamos ficar lá sem stress. O boi foi crescendo, engordando e se apropriando de mim. Eu já acordava com ele me chamando.

Um dia eu estava escovando meu bichinho, aí ele deu uma volta pelo meu banquinho e resolveu me dar um cheiro no pescoço. Que susto! Repreendi rapidinho e saí da cocheira. Liguei para o veterinário e ele marcou de ir nos visitar sábado de manhã. Comentei com meu marido. Ao que ele disse que já era hora. Não entendi o significado dessa resposta. No sábado chegou o veterinário. Ele nos chamou e pediu a ajuda do meu marido. Inocentemente perguntei o que ele ia fazer. Os dois me olharam pasmos: “ué, vou castrar o Mussy”! Quase desmaiei. Coitadinho. Isso porque não tinha a menor ideia do que viria em seguida. Foi horrível. Se os bois castrados falassem…

O veterinário me prometeu que o Mussy ficaria mais tranquilo e não me daria mais nenhum “cheiro”. Quis saber o porquê desse comportamento. Ele me explicou que dei muito amor para ele e que o Mussy sentia muito ciúmes de mim.

E as coisas foram piorando. O meu bichinho possessivo tinha certeza que eu era dele, assim como todo o terreno de 5.000 m² com um campo de futebol e quadra de vôlei que ele não usava. Um dia meu filho mais velho, dois amigos e meu marido foram bater uma bolinha. Um no gol e os outros três chutando. Pena que eles não sabiam que eu brincava de bola, esconde-esconde com meu bebêzão… O Mussy estava dissimuladamente comendo sua graminha até que a bola sobrou para ele. Bem, ele entrou com bola e tudo e marcou um golaço! Eu até bati palma, mas eles não gostaram nada.

No dia seguinte a sentença: ou ele ou eu! Disse meu marido um pouquinho bravo.

Lá se foi o Mussy para uma fazenda.